Jan
14
2008
Não é só a leitura o que me falta. Ultimamente não escrevo mais nada. Nem bilhetes. Meus posts, então… nem os comento: pobres, sem assunto e repetitivos. Relatos privados em moleskines? Preguiça. Continhos bizarros em folhas de fichário viraram raridade.
Será a mania de escrever em blogs e microblogs sobre assuntos banais que motivou a minha “morte” literária? Acho que esse costume mais incetiva que inibe a escrita.
Sugeriram-me que seria a falta de leitores: quem escreve para si não tem estímulo para continuar. Acontece que ninguém escreve, mesmo que diários, apenas para si mesmo. Parece uma contradição com o post sobre o ato de blogar, mas digo que escrevo o conteúdo que me apraz para os outros, o que difere de escrever e ninguém além do escritor tomar conhecimento. Agora eu não mostro meus escritos a ninguém, mas um dia alguém os encontra e poderá divertir-se com eles.
“Óh, ela quer deixar textos para a posteridade”. Nops, é vergonha da crítica, mesmo. Já basta-me a auto. Provável que seja ela a responsável pelo fim de minha inflammatory writ.
Edit: post escrito originalmente na semana entre o natal e o ano novo. Não tem mais nada a ver agora, mas se eu adiasse muito ele perderia o sentido, de qualquer forma.
Ah, e descobri o que faltava pra voltar a escrever: discussão.
Jan
11
2008
Eu cansei de ler coisas “novas”, no sentido de não lidas por mim. Comprei uns Borges e Capote. Tenho diversos outros não lidos nas prateleiras e uma preguiça da “novidade”…
Isso que não leio nada mais recente - não é por birra, mas quem sequer terminou de ler os autores mortos que considera bons, como pode se aventurar a ler novatos que ainda produzem?
Os livros que releio são: contos do Fitzgerald (viciei), Bioy Casares, Machado de Assis e Madame Bovary - segunda tentativa de ler em francês.
Quando criança eu só relia - meus exemplares d’A Moreninha e d’A Viuvinha gastaram-se, coitados. Está na hora de voltar a ter esse prazer.
Dec
28
2007
Impossível escolher um só… Mesmo que eu leia pouco e as possibilidades sejam limitadas, não posso eleger o melhor.
Olhando pra miserável lista de livros lidos neste ano - apenas 26! - percebi que os meus autores do ano foram o Bioy Casares e o Fitzgerald. Difícil escolher o melhor deles. Apaixonei-me por todos os contos que li até agora de ambos, e me encantei com os romances que li dos dois.
As leituras mais importantes do ano, portanto, são os Contos do Fitzgerald - leitura que levo pra 2008, pois, como bem diz o Derbi (2007), é daqueles livros que provocam uma dorzinha progressiva conforme a mão esquerda vai segurando mais páginas que a direita. O romance do ano é a Invenção de Morel, e o poema do ano é… Bom, tive poema do ano no ano passado. Li pouquíssima poesia neste, portanto fico devendo. Já o teatro do ano deve ser Bem está o que bem acaba, peça menor do Shakespeare, por falta de qualquer outro teatro que eu tenha lido.
No ano que vem, dedicarei-me aos livros ainda menos do que gostaria. Biblioteconomia mata a leitura.
Dec
15
2007
O destino ainda não ajustara contas com ela - por enquanto. Recuara alguns passos e se escondera nas sombras, rangendo os dentes. Mas havia tempo de sobra. No entanto, quando Fifi caminhou pelo saguão, com o rosto refletindo suas novas esperanças e a ansiedade pela visita ao couturier, o próprio destino ficou na dúvida se, algum dia, chegaria a pegá-la de jeito.
Fitzgerald, F. Scott. A menina do hotel. In: ______. 24 Contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 341.
Nov
27
2007
Acho que foi a terceira tentativa.
Dessa vez, pra não haver pressão, peguei na biblioteca.
Comecei a ler em uma madrugada insone. Devorei cem páginas, afinal, um livro sem pausas precisa ser lido de uma tacada só.
Cansei, tive sono, parei.
Quando o peguei novamente, havia perdido o fôlego. Insisti. Fui até a página 200, bem devagar. E a história piorou: passou a girar em torno de fuzila-não-fuzila, vai-volta-de-guerra… Sem graça. Ainda se tivesse descrições boas das guerras, algo que desse um pouquinho mais de emoção. Ou um pouco menos de sentimentalismo. Um pouco mais de realidade.
Qualquer um que me leia há mais tempo sabe o quanto eu gosto de realismo mágico, real maravilhoso, literatura fantástica, literatura latinoamericana. Entretanto, por mais que eu goste dessas bizarrices, acredito que o elemento fantpastico deve ser secundário e que os sentimentos e reações humanas devem ser realistas, verossímeis. Que sentido tem uma mulher como Amaranta? Até a página 200, nenhum. Uma personagem romântica, quase, de tão sem-graça. O problema não é a história, são as personagens, destituídas de qualquer… pitada de Borges, Sabato ou Cortázar. A idéia de botar uma família no meio do nada e contar sua história por gerações é cansativa. Acho que só suportei o Tempo e o Vento porque o Sergius conta muito bem a história, deixou-me com vontade de ler. Como nenhum dos meus professores nunca incentivou a leitura do Marquez e, se o citaram no Ficciones, eu faltei, não tenho o mínimo interesse na obra.
Percebi também que não vale o sacrifício. Tenho mil coisas para ler, não perderei cem anos da minha vida (tava demorando… ) com esse livro.
Nov
22
2007
Nas minhas leituras em pílulas deparei-me com excelente conto do Fitzgerald, chamado A Escada de Jacob.
O Jacob se voluntariou a levar a mocinha ao topo da carreira e a mostrar a ela o que era apaixonar-se por alguém. Ela não solicitou isso; ele se ofereceu e não pediu nada em troca. Mesmo assim, ela passou praticamente o conto todo querendo casar com ele. Uma espécie de “dever moral”. Ele fizera tanto por ela, eram tão amigos, ela tão grata… O Jacob sempre a recusou, até apaixonar-se por ela. Previsivelmente, quando era tarde demais.
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Nov
17
2007
Nada sobre mim - mania que as pessoas têm de interpretar citações, querer que tenham relação com a vidinha quotidiana. Quero apenas provar que o cara é bom - como se precisasse de prova. Ok., também estou a preferir Borges, mas são diferentes. Os diálogos do cortázar parecem reais. Poderiam ter acontecido com qualquer um, exatamente dessa forma, com essas palavras e pausas.
E sou bobo principalmente, pode acreditar, porque me falta o que sobra em Juan: entusiasmo.
- Às vezes - comentou ela, baixando a cabeça - ele me parece tão menino ao teu lado.
- Um belo elogio - reconheceu Andrés passando levemente a mão pelos seus cabelos.
- Você merece - afirmou Clara..
- Não, não estou falando de mim.
- Ah.
[. . .] 4 páginas de supressão [. . .]
- Não creio que poderia me esquecer. Tudo está contra nós, Andrés.
Juan fazia sinais para eles enquanto ouvia o cronista. Olhando para o chão, Clara começou a andar pela galeria.
- É inútil e não te servirá de nada - murmurou com uma voz que a Andrés pareceu antiga, de quando ela lhe falava com esta voz. - Mas quero que saibas que sinto muito.
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Nov
07
2007
A literatura é muito explicativa. Graças a ela, aprendi muito sobre o comportamento humano.
Nos últimos tempos, entretanto, não havia lido nada tão didático e hilário quanto este conto do Tchekov: Diário de um Homem Genioso.
Cito:
“- Por favor, senhor Nicolas [. . .] - por que está tão triste? Por que se mantém tão calado?
Que jovem curiosa! De que iria falar com ela? Que tínhamos nós de comum? Procuro descobrir qualquer coisa acessível para sua inteligência… qualquer coisa de… banal… Depois de muito refletir comecei a falar:
- A destruição das florestas constitui um mal irremediável para a Rússia.
- Nicolas [. . ] dir-se-ia que deseja me castigar com seu silêncio… Como o seu sentimento não é correspondido quer sofrer em silêncio, sozinho! [. . .] Qual seria a sua resposta se a jovem a quem ama com tanto carinho lhe prometesse uma amizade eterna?
[. . .] não sei absolutamente o que dizer. Imaginem que, em primeiro lugar, não estou enamorado de ninguém; em seguida, de que me serviria uma amizade eterna; e, por fim, sou terrivelmente genioso.
[. . .]
- Nicolas, beije-me! - disse.
Fiquei totalmente confuso e não sabia o que responder. Ela repete o pedido. Nada a fazer! Levanto-me e beijo-a na face. Sinto a mesma sensação de minha infância, quando, na hora Réquiem, me obrigaram a beijar o rosto frio de minha avó morta.”
A questão da árvore é piada interníssima, não faz parte da obra em si.
Mocinhas: não se martirizem para compreender os mocinhos.
Não há nada a compreender. Desistam desses tipos. E riam.