Oct 06 2007
Corujas
Não sei como ela começou com isso. Quando a conheci, já era velha. Já não gostava de coca-cola. Já dizia que mim não faz nada e se reviraria no túmulo - não tivesse sido cremada - por me ter de me ouvir dizer interviu em momentos de retardamento profundo.
Parêntese: o que mais me lembro do final de semana da morte dela foi do sermão do pai na volta de Caxias. Fomos só nos dois no carro, éramos só nós dois com aquilo tudo. Eu ainda não sonhava em ter uma Alice por perto, mal sabia que ela estava pra existir em seguida. A tia já estava cremada, eu só havia ido ao velório. Voltávamos pra casa, lado a lado no carro, em silêncio. Ele disse: te cuida, né? Eu: ? Ele: Sim, já és uma mocinha e já tens namorado. Sei como são as coisas. Te cuida. Eu: vermelha. Silêncio. Parece que pais têm bola de cristal. Um dia disserto a respeito.
Sei que sempre colecionou corujas. Não vivas ou empalhadas, lógico; eram aquelas de cera, de vidro, em quadros, em estátuas, bordadas. Corujas por todos os lados. Havia uma grande, linda, perto do banheiro. Ela me assustava nas noites geladas, naquela casa fria, que cheirava a livros e a geléia de uva. Ainda lembro daquele cheiro único, que se foi com a Benta e com o desmonte do apartamento.
Viajo. Ao que interessa: um belo dia, eu já com Alice, apartamento e solteirice, minha avó liga.
Carla, estou no apartamento da Benta. O que tu quer?
Os livros, minha primeira idéia, foram todos pra Associação. Lembrei do que eu brincava na infância: pilão, vampiro-da-cara-feia, bonecas e corujas. Eliminei o pilão e o da cara feia por serem grandes demais pro meu pequeno lar. As bonecas lembrei serem mais feias e possuirem menos significado familiar.
Uma coruja, uma corujinha só. Ela tinha tantas…
Ih, Carla, todo mundo quer uma corujinha. Todos querem as que deram de volta, afinal. Sobrarão poucas, as compradas por ela.
Só que a vó conseguiu-me três; um belo conjuntinho. Simples corujinhas, das que talvez se encontre em qualquer lojinha de presentes.
Pouco me interessa. Hoje fui à serra e comprei uma coruja. Coleções não podem morrer.
Eu sempre quis colecionar gatos - influência da Bema, provavelmente -, mas a vida me deu corujas.
Não tenho mais medo delas. Que venham todas.


Será que não dá pra tu ter uma coleção de corujas e gatos? Eu também gosto dos gatinhos. Corujas, eu nunca reparei. Prestarei mais atenção. Beijos.
Não consegui reparar nas corujinhas. (ou seria reparar “as” corujinhas?)
Os gatos, já imagino a primeira dupla: “Um sorte, outro dinheiro!”
:-)