Jul 13 2007
Melhores trechos de Sobre Heróis e Tumbas
Nada revelador, apenas boas passagens, recomendadas inclusive a futuros leitores da obra. Comentei-a ao final do post, como de costume. Ah, acredito que cada um dos trechos selecionados virará um post no futuro. Num futuro bem distante, quando as férias e o ócio verdadeiro deixarem de ser um sonho.
Monólogo de Alejandra:
- Ela está tão acabada. Não serve para cantar e também já não deve servir muito na cama, a não ser para provocar fantasias: quem transaria com um monstro desses?
Virou de novo os olhos para a cantora e murmurou, como se falasse consigo mesma:
- Daria tudo para ser igual a ela!
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Alejandra, de novo:
- Por que você veio, então? - não pôde deixar de dizer.
Alejandra o olhava como tentando concentrar a atenção.
- Prometi que viria, não foi?
Mal lhe trouxeram o gim, ela o bebeu de um só gole. Depois disse:
- Vamos sair. Quero tomar um pouco de ar.
Quando saíram, Alejandra andou até a praça e, subindo na grama, sentou-se num dos bancos que dão para o rio. Ficaram um bom tempo em silêncio, que foi quebrado por ela, ao dizer:
- Como é repousante se odiar!
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Fernando, pai de Alejandra, em seus escritos:
Acho que ao ler a história de Norma Pugliese alguns de vocês pensarão que sou um canalha. Desde já lhes digo que acertaram. Considero-me um canalha e não tenho o menor respeito por minha pessoa. Sou um indivíduo que mergulhou em sua própria consciência, e quem, após afundar nas dobras de sua consciência, ainda se pode dar ao respeito?
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Bruno, a respeito de Fernando:
Zombava das teorias simplistas sobre a mulher, que resultam em lugares-comuns, como os que afirmam que a mulher é romântica e deve ser conquistada à luz do luar e os que imaginam que deve ser maltrada. Em sua opinião, havia mulheres que precisavam de um buquê de flores, e outras, de uma bofetada, e outras (às vezes as mesmas, dependendo das circunstâncias), das duas coisas. Mas a longo prazo acabava maltratando todas elas, às vezes cruelmente, como quando bocejava no momento culminante do ato sexual.
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Terminei o livro como terminei O Túnel: sem conseguir compreender as pessoas normais da história. Em um, compreendi Castel. Era louco. Em outro, compreendi Fernando. Era louco. A loucura basta para explicá-los. Só que não há como entender Iribarne, Alejandra, a mãe de Alejandra, Allende, Martín e, especialmente, o Bruno. Eu não costumava gostar de personagens do Sabato, são todos estranhos demais, humanos demais. O Bruno parece sensato durante praticamente toda a narrativa, definitivamente um cara maduro, normal (?!?)
Se recomendo o livro? Só aos que têm paciência, aos que já leram algo do Sabato, aos que já leram algo do Borges, aos que conhecem um pouco a história Argentina e nutrem simpatia pelos hermanos. Todos os itens anteriores são obrigatórios para a leitura. Ah, sim: não esperem num livro de mais de seicentas páginas a mesma velocidade que há em O Túnel. Quem o leu e achou lento, nem pense em pegar Sobre Heróis…
SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 282, 300, 386, 565.

