Eu jurei que seria diferente comigo. Milhões de mães, bilhões delas, enfim, todas as que passaram pelo mundo e que não apresentaram algum tipo de desvio psicótico grave são assim. Como eu, que não tenho nenhuma doença mental grave diagnosticada até o momento, seria diferente?
Assim como? Ahn, assim, dedicada demais. Dedicada a ponto de sentir o chão faltar ao ver o filhote mencionar o desejo de abandonar o ninho. Dirão vocês que a Alice só tem quase quatro anos e que é cedo demais para eu ter preocupações do tipo. Concordo. Mas já sei; reagirei assim.
Quando eu estava grávida, jurei não mudar minha vida e meus planos futuros em função dela, já que ela cresceria como qualquer filha normal e me deixaria um dia. Pobre adolescente encanada. Lógico que seria diferente. Nos últimos quatro anos, desisti dos meus planos, um de cada vez. Mudei alguns e desisti inclusive das adaptações:
Plano A
- Direito
- Mestrado/especialização/qualquer coisa no exterior, preferencialmente França
- Concurso público para me tornar uma juíza/promotora/whatever
- Encontrar o príncipe encantado, casar e ser feliz até que a morte chegar.
Plano B
- Biblioteconomia
- Mestrado/especialização/ qualquer coisa em São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro
- Concurso público para me tornar uma bibliotecária e/ou professora na área.
- Encontrar um cara legal que aceite dividir um pouco de sua vidinha comigo.
Plano C (atual)
- Tentar terminar o curso (biblioteconomia).
- Conseguir um emprego qualquer que pague, pelo menos, metade das minhas contas.
- Ficar sozinha até o fim dos dias.
Não posso dizer que a culpa é da Alice. Eu seria a maior mentirosa do planeta. Ela é supercompanheira, nunca me atrapalhou em nada. Só que, mamãe que sou, eu quero o menor dos sofrimentos pra ela. Pra quê tirá-la do convívio com familiares e amiguinhos? Como jogar fora com estudos excessivos um tempo que poderia passar com ela? Pra quê colocar alguém no meio da nossa relação?
Quando me vi, estava assim. Colocando-a em primeiro lugar, sempre. Um dia, ela vai sair de casa. E eu não terei mais motivo. A menos que ela me dê um neto pra mimar, aos 35 eu parecerei uma senhora de 60, com o sentimento de dever cumprido, esperando a morte. Ops, se ela me der um neto, também parecerei uma senhora de 60. O que importa é que tenho 20 e me sinto uma quarentona desestimulada. Não que todas sejam, mas muitas começam a se sentir assim com essa idade e…