Jun 09 2007
O que diz? Não, COMO diz.
Algo que adoro na literatura em geral é que sempre descobrimos formas novas de dizer o óbvio.
A cena abaixo (AUSTER, 2004, p. 76) é linda, se observada pelo ângulo proposto pelo autor no momento. Após a leitura final do livro, ela adquiriu outro sentido pra mim.
Grace fechou os olhos e sorriu.”Você sempre me amou, não é, Sidney?”
“Desde o primeiro momento em que te vi.”
“Sabe porque eu casei com você?”
“Não. Nunca tive coragem de perguntar.”
“Porque você nunca me decepciona.”
Antes parecia um jeito de dizer: te amo porque tu nunca me decepcionas. Depois me pareceu (atenção, não está explícito no livro!) uma forma de dizer: nunca te amei, idiota. Isso se as fantasias do autor estiverem certas e se a minha interpretação sobre o que ele percebeu tiverem algum fundamento. No mundo real, teriam: casou com ele porque ele nunca a decepciona, ao contrário do outro que não sabia o que queria, se podia e se não podia.
AUSTER, Paul. Noite do Oráculo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

