Jun
03
2007
Jornalismo não dá dinheiro no Brasil. Revistas não se sustentam apenas com publicidade e assinaturas, elas são sempre insuficientes. As de esquerda (Bundas), as de direita (Primeira Leitura), todas as que são independentes de grandes editoras duram pouco. Seria diferente com a Internet? Não, claro que não.
Eu poderia cair na obviedade e culpar a falta de cultura dos brasileiros, xingar o Estado, a mãe, o capitalismo… Apesar das políticas públicas, das bibliotecas e dos pockets, os brasileiros não lêem. Quando o fazem, auto ajuda e o Paul Rabbit. Jornal? Revista? Diário Gaúcho, Tititi e Caras não têm motivos para reclamações financeiras. A culpa é de quem? Dazelite? O que a zelite mais gostaria é que seus jornais e revistas favoritos não fechassem e que seus livros fossem mais em conta. Se houvesse maior consumo, certamente isso ocorreria.
Não sei quem são os culpados, se eles existem. Creio que ninguém possa afirmar nada a respeito sem cair em achismos e ideologias.
O que eu afirmo com segurança é que a leitura em geral é um problema para os moradores da banânia, não só o jornalismo. Por isso o NoMínimo corre o risco de deixar de existir.
Sinto muito, mas desistam. Há algo de errado com os habitantes do nosso país e não há nada que possamos fazer.
Jun
03
2007
Escrevi recentemente um maldito memorial. Ficou uma porcaria gigantesca. Há, porém, alguns fragmentos da introdução e da conclusão que merecem ser compartilhados:
Sábato (1961, p.1) trata do assunto de forma assaz interessante, quando afirma por meio de uma personagem paranóica o seguinte:
Embora nem o diabo saiba o que e porque deve a gente recordar. Na realidade, sempre achei não existir memória coletiva, o que talvez seja uma forma de defesa da espécie humana. A frase “todo tempo passado foi melhor” não indica que antes sucederam coisas menos ruins, mas apenas que - felizmente - as esquecemos. Logo, semelhante frase não tem validade universal; eu, por exemplo, caracterizo-me por recordar preferentemente os acontecimentos nefastos e assim quase que poderia dizer que “todo o tempo passado foi pior”, quando nada porque o presente me parece tão horrível quanto o passado; [. . .] a memória é para mim como uma temerosa luz que alumia um sórdido museu de vergonhas.
Creio que essa questão, na verdade, seja apenas terminológica. O que eu chamaria de evocação de fatos que aconteceram a antepassados ou à coletividade outros chamam de memória coletiva.
[. . .]
Acreditava que lembraria fidedignamente de grande parte da minha vida e que a analisaria com um olhar maduro, de quem já viveu e aprendeu com ela. Percebo agora porque sou uma pessoa tão irracional; não aprendi absolutamente nada. Não consigo olhar minha vida e analisá-la friamente. [. . .] Entretanto, não mudaria nada se tivesse a oportunidade de voltar.
Além disso, acredito que minhas lembranças contêm grandes imprecisões. Afinal, a memória, como bem descreveu Pomian, (2000, p. 508), “É sempre imperfeita, porque o passado não pode, em circunstância alguma, ser simplesmente restituído na íntegra, e toda a reconstrução é marcada pela dúvida.” Tanto a memória é marcada pela dúvida que muitas vezes as pessoas confundem-se entre fatos e histórias, lendas, literatura, como no texto “O Cervante de Goiás”, em que o entrevistado mistura fatos com passagens literárias. Sim, é possível saber quando alguém está mentido ao confrontar relatos de outras pessoas e obervando registros como datas e afins. Entretanto, disse-me um amigo que não existem fatos, apenas interpretações. Começo a concordar com ele agora. As nossas memórias são tão mutáveis que estão sempre sujeitas a reavaliações e a interpretações diversas. Não que o relator das memórias seja um mentiroso; ele apenas percebe os acontecimentos através de suas próprias interpretações da realidade, que podem muito bem ser distorcidas se comparadas com outras vivências.
Como confiar no que foi escrito, se tudo é escrito por pessoas, sujeitas a interpretações e falhas? Não há como falar na memória dita coletiva sem mencionar a questão fonte. Mas isso fica pra outro post.