Jun 02 2007
As decisões de Morel
Atenção: contém spoiles sobre o livro A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares.
Não leste e quer lê-lo? Não clique no link abaixo.
Vários livros tratam da eternidade, mas não li nenhum tão… bom? excelente? maravilhoso com toque realista? Não há como explicar. A idéia de viver eternamente uma lembrança boa e pagar por isso com a vida é assombrosa.
Vivi muitos momentos bons, certamente gostaria que essas lembranças fossem eternas. Só que tenho a possibilidade, enquanto estiver viva, de ter momentos tão bons quanto, ou ainda melhores, e, ao mesmo tempo, recordar-me dos que já vivi. Não sei se abdicaria de todo o meu passado e todo o meu futuro por uma semana eterna de tranqüilidade e bons momentos.
Outra questão pertinente do livro é a solitária decisão do Morel. Ele não consulta ninguém a respeito; submete todos os seus queridos a uma vaidade talvez, apenas (?) para passar a eternidade vivendo a mesma semana em sua companhia.
O narrador, penso eu, não tinha outra opção. Condenado à morte/prisão perpétua? Morrer de fome na ilha? Bom, que morra e tenha a eternidade falsificada ao lado da imagem de uma amada-morta.
Acredito que o narrador toma decisões acertadas com as possibilidades que tem, e que Morel erra duas vezes. A efemeridade bem vivida vale mais que a eternidade repetida, apesar de os ‘imortais” dele não terem consciência desse eterno retorno. Aliás: espero que não vivamos num eterno retorno.

