Jun 22 2006
Poesia e biblioteconomia
Hoje fui à casa do meu irmão. Almoçamos, tagarelamos, matamos as saudades. O mocinho odeia ler. Começou a falar em vender os livros de lá, que não ia me emprestar os que eu quero ler - a menos que eu pagasse bem! Enfim, olhei um Pessoa pocket e peguei pra dar uma olhada. Folheei e comecei a ler tabacaria em voz alta. Ele relutou, mas prestou atenção. Fui lendo outros, e outros, e outros… Acho que ele gostou. Não quero ser uma bibliotecária escolar ou algo do tipo, mas creio que formar leitores seja muito importante, mesmo.
Sem leitores não há usuário (cliente), sem usuário eu não tenho emprego! O meu irmão é o maior desafio. Não dá pra dizer que faltou estímulo, escola… Recebemos os mesmo estímulos, ele estuda em uma escola melhor que a que eu estudei, ele tem mais oportunidades que eu tive… Não entendo o que saiu errado. Como diz o moço, as pessoas são diferentes - ainda bem! Há que respeitar. Eu respeito, mas é meu papel incentivá-lo. Li pra ele essa também, do Ricardo Reis:
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


*finalmente editei essa joça como eu queria! \o/*
bonita poesia!!!
Formar leitores é um trocinho complicado!! Eu tento as vezes, mas depende muito do esforço do sujeito. E normalmente quando um preconceito precisa de esforço pra ser vencido, continua preconceito.