Nov 24 2005
Trechinho d’O túnel, para alegrar (!) meu dia
“Eu poderia calar os motivos que me levaram a escrever estas páginas de confissão; mas, como não estou interessado em passar por excêntrico, direi a verdade, que de resto é bastante simples : pensei que elas poderiam ser lidas por muita gente, já que agora sou famoso; e, embora não tenha ilusões acerca da humanidade em geral, nem dos leitores destas páginas em particular, anima-me a tênue esperança de que alguma pessoa chegue a me entender. Mesmo que seja uma única pessoa.
‘Por quê’ , poderá perguntar-me alguém, ‘apenas uma tênue esperança, se o manuscrito há de ser lido por tantas pessoas?’
Esse é o gênero de perguntas que considero inúteis. E, não obstante, temos de prevê-las, porque as pessoas vivem fazendo perguntas inúteis, perguntas que o exame mais superficial revela desnecessárias. Posso falar até o cansaço e aos gritos para uma assembléia de cem mil russos : ninguém me entenderia. Percebem o que quero dizer?
Existiu uma pessoa que poderia me entender. Mas foi, justamente, a pessoa que matei.”
(”O Túnel”- Sábato, pg.11)

